
Tumores malignos, estágios do câncer e cirurgia em cordas vocais
02/08/2023
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13/09/2023Quem precisa de iodoterapia?
É muito comum nos preocuparmos com o tratamento que precisaremos fazer após a cirurgia devido ao câncer de tireoide. Com frequência bem grande os pacientes me procuram e questionam sobre o assunto ainda na primeira consulta.
Fique tranquilo, é a minoria dos pacientes que precisam realizar complementação com iodoterapia.
Até 2015, recomendava-se realizar o tratamento de iodoterapia ou iodoradioterapia para quase todos os pacientes em pós operatório de cirurgia por câncer de tireoide. Com o passar dos anos, diversos estudos científicos mostraram que não há necessidade para esse tratamento na maioria dos casos. Dividiu-se os pacientes em riscos de volta de doença e do aparecimento de metástases.
No mesmo ano de 2015, reuniu-se diversos serviços médicos ao redor do mundo para unificar as condutas, produzindo um documento emitido pela mais respeitada organização médica para câncer de tireoide, a American Thyroid Association (ATA).
O produto desta reunião foi o “guideline ATA 2015” que até hoje utilizamos como molde para o tratamento dos pacientes com câncer de tireoide. Neste breve texto irei resumir os fatores que utilizamos para estabelecer se o paciente precisa fazer iodoterapia, bem como os benefícios e riscos do tratamento e o que fazer caso seja indicado o tratamento complementar.

https://www.mdanderson.org/cancerwise/radioactive-iodine-therapy--9-things-to-know.h00-159466368.html
1- O que é iodoterapia?
Iodoterapia é um tratamento utilizado em algumas doenças relacionadas a tireoide, entre elas alguns cânceres de tireoide e o hipertireoidismo (Doença de Graves). É um tratamento seguro e eficaz quando bem indicado.
É realizado pela administração de uma medicação via oral que contém iodo com conteúdo radioativo. A dose do tratamento é calculada por um médico especialista em medicina nuclear após uma consulta. O paciente costuma ficar isolado algumas horas no hospital ou clínica.
A maioria dos serviços mantém o paciente internado por no máximo 12h, porém existem casos em que necessita-se de maior dose em que o paciente pode ficar internado mais de um dia, o que é raro.
2- Tive câncer de tireoide, como o médico sabe se vou precisar de iodoterapia?
A decisão de realizar ou não este tratamento complementar pós cirurgia vai depender do risco que o paciente tem do câncer retornar. Para isso, utilizamos de escalas de risco que tomam por base a idade do paciente, como foi realizada a cirurgia, se foi totalmente removida a tireoide, se haviam gânglios linfáticos acometidos (bem como o tamanho e a localização) e como era o tumor no exame final de anatomopatologia (a conhecida “biópsia da cirurgia”).
- Risco baixo: A grande maioria dos pacientes operados são de baixo risco. São operados devido tumores malignos de pequenas dimensões (menores de 2cm), que estavam confinados dentro da glândula tireoide, não apresentando invasão ou saída para outros órgãos ou tecidos nas proximidades. Não apresentam gânglios linfáticos ou metastáticos de característica de má evolução. São de tipos menos agressivos (apesar de malignos) e de evolução mais satisfatória.
Quando baixo risco, não indicaremos de rotina o tratamento de iodoterapia, pois o benefício não é maior que os riscos.
- Risco intermediário: Tipos mais agressivos de cânceres de tireoide, que apresentem envolvimento de veias e artérias (invasão vascular) e com gânglios linfáticos nas proximidades da traqueia e da tireoide que apresentam-se em maior número de 5 e tamanho entre 0,2-3 cm.
Quando risco intermediário, o médico irá julgar individualmente a necessidade da iodoterapia, levando em consideração diversos outros fatores de risco e história familiar para poder indicar o tratamento.
- Risco alto: Este grupo de pacientes costumam ter tumores bem mais agressivos em que o câncer sai da tireoide se estendendo e invadindo estruturas ao redor como músculos e traqueia. Quanto às metástases, caso sejam identificados gânglios linfáticos maiores de 3cm na região central do pescoço ou na região lateral do pescoço de qualquer tamanho, o doente é encaixado como alto risco e deve ser tratado com maior proximidade e com iodoterapia.
Nós especialistas em oncologia e cirurgia de cabeça e pescoço levamos em consideração muitas características além destas listadas acima.
3- O que a iodoterapia age no organismo?
O iodo radioativo é chamado I-131, e ao entrar em contato com nosso organismo, procura células que captam o iodo em nosso organismo, ou seja, as células presentes no órgão tireoide. Mas espera um pouco, eu tirei minha tireoide, como podem haver células ainda lá? Essa dúvida deve ser respondida com uma breve explicação do funcionamento do nosso corpo e da cirurgia.
Nossa tireóide é composta por uma unidades funcionais chamadas folículos tireoidianos, que é para a tireoide como os neurônios são para o cérebro, Ou seja os folículos são trabalhadores que pegam o iodo que ingerimos e transformam em hormônios da tireoide.
Quando retiramos a tireoide na cirurgia, podem ficar algumas células residuais com seus folículos tireoidianos nas proximidades da traqueia, principalmente em casos de tumores malignos de alto risco. O iodo radioativo é captado por essas células residuais que tendem a ser destruídas, atuam como um “cavalo de troia”, engana as células residuais que permitem que a substância radioativa entre nos folículos e assim são destruídas.
Então por que não realizamos iodoterapia para todo mundo, isso não diminuiria a chance de voltar o câncer? Isso é o que falaremos a seguir.

Fonte: www.cancerresearchuk.org/about-cancer/thyroid-cancer/treatment/radiotherapy/radioactive-iodine-treatment/during-radioactive-iodine-treatment
4- Por que não indicar iodoterapia para todos os pacientes operados de câncer de tireoide?
Apesar de muito efetivo, o tratamento com a iodoterapia deve ser indicado de forma correta. Assim como qualquer outro tratamento na medicina, tem chances de efeitos adversos. Saber pesar os riscos e comparar com os benefícios é obrigação do médico.
Iodoterapia pode gerar fadiga, náuseas, vômitos, diarréia, boca seca, inflamação em glândulas da saliva que podem ser de leves a gravíssimas.Quando a cirurgia de tireoidectomia total (remoção total da tireoide) é feita de forma efetiva nos casos de risco baixo e intermediário, costumeiramente os riscos não maiores que os benefícios, sendo indicado o acompanhamento com o especialista que operou com tranquilidade e efetividade.
Portanto, quando bem indicado, o tratamento com iodoterapia é benéfico ao paciente, o que não podemos dizer de quando super indicado. Por isso, converse com seu médico sobre a cirurgia e tratamento complementar e retire todas suas dúvidas.
5- É necessário ficar afastado das pessoas quando fizer iodoterapia?
Sim, como é uma substância radioativa que entra no corpo, orienta-se não entrar em contato com crianças, gestantes e animais por um período que pode ser de horas a dias. O tempo de isolamento depende muito da dose administrada de iodoterapia. Não fique com medo, a maioria dos casos não exigem mais que 24-72 horas.
Todas essas informações serão fornecidas pela equipe da medicina nuclear antes da realização da administração da medicação.
6- Preciso fazer algum tipo de dieta ou preparo antes do iodo radioativo ser administrado?
Após a administração da dose, é feito um exame de cintilografia de corpo inteiro que mostrará as áreas em que a substância foi captada no corpo. Deseja-se que ela seja absorvida nas células residuais da tireoide, portanto, na maioria dos casos é solicitado aos pacientes não usarem medicação para repor o hormônio da tireoide (levotiroxina) por algumas semanas e sem alimentos que contenham iodo, como sal de cozinha, frutos do mar, entre outros.
Caso o paciente não possa ou não consiga fazer esses cuidados, tem-se a opção da realização do exame e administração da iodoterapia usando outra técnica com uso de uma medicação “alfatirotropina” que a pesquisa de corpo inteiro com TSH recombinante. Portanto, pergunte sobre esta possibilidade ao seu médico.
7- Eu descobri metástases no pulmão e ossos e agora?
Casos de tumores com nome de carcinoma papilífero de tireoide são sensíveis a doses de iodoterapia, porém faz-se necessário a cirurgia de remoção da doença no pescoço para realizar o tratamento das metástases.
O cirurgião opera a tireoide e os linfonodos do pescoço removendo-os. Após a recuperação da cirurgia, é indicado o tratamento com radioiodoterapia.
Como falado anteriormente, onde houver células com folículos tireoidianos capazes de absorver iodo, será captada a medicação para destruir as células metastáticas.
Portanto, não perca a esperança, apesar da notícia desagradável de um câncer com metástase, hoje temos tratamentos efetivos.




