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Os avanços tecnológicos em cirurgia vão além de técnicas menos invasivas, reconstruções complexas, como procedimentos anestésicos menos danosos e antibióticos mais eficazes. Os cuidados pré, trans e pós-operatória - operatória são um desses avanços que não podem ser ignorados, selecionando pacientes a um tratamento mais individualizado e favorecendo melhores resultados funcionais, principalmente em pacientes submetidos a cirurgias oncológicas.
Pense comigo. Caso você fosse viajar de avião devido um problema familiar urgente e soubesse que aquele avião tem chance de sofrer um acidente de 3 em 10, ou seja você tem chance de morrer de 30%. Você subiria naquele avião?
Essa pergunta é muito comum de ser feita no consultório:
“Dr, qual a chance de sucesso em minha cirurgia?”
“Dr, tenho chance de complicação nessa cirurgia?”
Dessa forma, em 1997, muitos estudos começaram a desmistificar verdades até tão pouco tempo absolutas, como é o caso dos estudos baseados no ERAS (Enhanced Recovery After Surgery Society), favorecendo a recuperações mais rápidas, diminuição de complicações, retornos mais precoces as atividades laborais e diminuição nos custos de internação.

Esse modelo de cirurgia mais segura e eficaz tornou-se o marco para o tratamento de câncer. Conseguimos hoje operar pacientes idosos, com doenças crônicas e ter resultados ótimos. Tudo porque nos perguntamos:
“Qual é o melhor tratamento para este paciente?”
Isso mesmo, o tratamento oncológico deve ser individualizado. Cada paciente tem que ter um tratamento único.
E qual o objetivo principal do tratamento oncológico? É devolver ao paciente a condição prévia da doença da melhor forma possível. Ou seja, se você é uma pessoa ativa, trabalha diariamente e sustenta sua família, terá isso após a cirurgia. Caso você seja um paciente idoso que depende de sua família para sair de casa, porém faz tudo sozinho em casa, manter isso vivo em você. Portanto, o maior objetivo do tratamento é qualidade de vida!
Atualmente com os modelos de tratamento com recuperação acelerada o médico que trata o câncer deve ter em mente alguns pontos principais:
1- O sucesso da cirurgia está no preparo do paciente:
A cirurgia inicia-se semanas antes do procedimento cirúrgico propriamente dito. O paciente deverá passar em consulta com o cirurgião e equipe multidisciplinar. Envolver a família/cuidadores a realizar as consultas com o nutricionista, fisioterapeuta, médico, psicólogo e preparador físico.
O médico não trabalha sozinho, existe um time gigante por trás do sucesso de uma cirurgia.
- Nutrição: Operar um paciente desnutrido é muito complicado. Aumenta-se muito as chances de complicações graves no pós-operatório. Pneumonia hospitalar, infecções de ferida operatória, inchaços em pernas e braços, internação prolongada, abertura de pontos e emendas são algumas das complicações que podem ocorrer.
Portanto, nestes casos deve-se proceder com cautela. Avaliar se além de desnutrido, tem alguma limitação que caracterize ele como frágil. Fazer exames de imagem para avaliar se tem baixa de músculo no corpo (sarcopênico) para assim estabelecer o preparo nutricional adequado.
Suplementos alimentares ricos em proteína auxiliam na pré habilitação destes pacientes.
Alguns pacientes perdem tanto peso que precisam de uma via alternativa de alimentação. Câncer de boca, garganta, laringe, esôfago e estômago podem levar a dificuldades para se alimentar, baixa ingesta calórica e proteínas. Para estes casos, opta-se por passagem de sondas para auxiliar a recuperação do paciente e assim proporcionar uma chance menor de complicações graves no pós-operatório.
- Atividade física: O consumo de proteínas auxilia o paciente, entretanto, se o paciente não fizer algum tipo de atividade física, grande parte das proteínas ingeridas não será absorvida pelo organismo.
O preparador físico e fisioterapeuta entrarão em ação. Qualquer pessoa pode fazer exercício físico. Pacientes acamados, idosos, com problemas na coluna e pessoas que nunca fizeram atividade física, podem realizar musculação assistida e exercícios com auxílio destes profissionais.
Este tipo de atividade é chamado pré-habilitação motora e respiratória. Previne infecções pulmonares (pneumonias), infecções hospitalares, aumenta o equilíbrio e força física necessária para conseguir sair da cama no mesmo dia da cirurgia e permite ter alta mais rápido. Consequentemente, o paciente retorna mais rápido a sua vida normal.
- Psicologia: O preparo mental para passar por toda essa jornada é peça fundamental. Pacientes que compreendem melhor a doença, entendem a cirurgia que será realizada, conversam com seus familiares sobre o câncer, conseguem lidar melhor com o tratamento e com a doença.
Falar sobre o que pensamos, sobre nossos medos, desejos e dificuldades nos ajuda muito. A psicologia tem um papel fundamental fortalecendo os mecanismos que temos para lutar contra a doença. Além de proporcionar uma melhor condição para que a reabilitação seja rápida e o paciente retorne à sua vida normal. Sim, porque há vida após o câncer.
Muitos familiares chegam ao consultório pedindo para não falar o diagnóstico de câncer para o paciente. É importante respeitar a decisão dos familiares. Porém sempre converso sobre a importância do paciente saber do diagnóstico e do tratamento. Quando nós sabemos o que temos, conseguimos reunir mais forças para lutar. Mas é claro que essa decisão deve ser compartilhada e respeitada pelo profissional médico, principalmente em pacientes neurologicamente independentes.
- Enfermagem e cuidadores: após a cirurgia, o paciente passará por um pequeno período internado. Neste momento, a equipe de enfermagem irá auxiliar nos cuidados do paciente. Irá ensinar os familiares, principalmente aquela pessoa que irá cuidar por mais tempo do paciente (chamado de cuidador).
Cuidados com ferida operatória, higiene adequada, como sair da cama para ir para cadeira, como caminhar, como se vestir. Tudo isso vira novidade. É bem parecido quando saímos de uma maternidade com um bebê recém-nascido, tudo é estranho, dá medo, mas no final conseguimos fazer tudo por quem amamos.
2- Usar métodos menos invasivos de cirurgia:
Muitas pessoas acham que fazemos cirurgias por videolaparoscopia, por via endoscópica e robótica porque queremos ter um corte menor ou resultado sem corte. Mas isso é secundário. O principal objetivo é causar menor dano ao organismo do paciente.
Ocorrem casos em que a cirurgia dura mais tempo do que por via convencional, porém o paciente sai bem melhor. E isso não está relacionado apenas com o tamanho da incisão cirúrgica, mas sim com o dano menor aos tecidos do corpo humano. Um exemplo grande disso é a cirurgia por vídeo de vesícula. Antigamente o paciente ficava com dor embaixo da costela, precisava tomar tramal, morfina, tinha vômitos, ficava 5 dias internado. Hoje em dia a maioria das cirurgias de vesícula são feitas por vídeo, com furinhos e com auxílio de câmera e pinças longas.
No caso de cirurgias de câncer, essas vias menos invasivas são mandatórias quando possível. Isso porque o paciente já está com o organismo sofrendo devido ao tumor, então se usarmos uma via mais agressiva, podemos levar a um maior desajuste orgânico. Um exemplo disso é a cirurgia por laser para câncer de cordas vocais. Antigamente tumores iniciais eram retirados com corte no pescoço e abertura da caixa da voz (laringe), atualmente, temos a possibilidade de retirar tumores bem maiores das cordas vocais pela boca, com auxílio de laser. O paciente fica sem corte no pescoço, com a voz melhor e retorna mais rápido ao trabalho.
Usar métodos mais modernos encarecem o sistema de saúde, porém quando se calcula o tempo menor de permanência no hospital, os custos menores de internação, de diárias de UTI, menor uso de medicações, antibióticos e taxas inferiores de complicações e reoperações, o resultado do cálculo mostra que a cirurgia minimamente invasiva é mais barata. Sabe quando você opta por comprar um produto mais barato e o barato sai caro? É um conceito semelhante.
Lembrando que não são todos os casos que podem ser submetidos a esta via de tratamento. Vai depender de cada doença e de cada paciente. Lembrem-se, medicina personalizada, cada paciente é tratado de forma individual.
3- Menor tempo de internação:
Passar muito tempo no hospital é proporcional a maiores complicações. Estudos mostram que o paciente quando internado, fica mais tempo deitado, o que leva a perda muscular, inchaços pelo corpo, perda de proteínas, maior tempo de recuperação, maior dependência de enfermeiros e cuidadores e principalmente, maiores taxas de complicações.
A chance de infecção hospitalar cresce muito em pacientes internados por um período maior que 3-5 dias. Isso porque após 72 horas internado, o paciente substitui toda a flora de bactérias e vírus que está habituado por germes hospitalares. Portanto, caso ele desenvolva uma pneumonia, infecção de ferida operatória e infecção urinária elas serão mais graves e necessitarão de antibióticos para germes do hospital, na maioria das vezes antibióticos que serão administrados na veia do paciente.
Ou seja, devemos passar apenas o período necessário internados. Isso fará com que você tenha menos complicações e menor tempo de recuperação total.
4- Na alta, ter contato com a equipe médica:
Agendar o retorno com o cirurgião é muito importante. Pegue o contato do médico ou de sua equipe e uma referência de onde ir caso necessidade.
Toda cirurgia pode apresentar o que chamamos de complicações tardias. Ou seja, que podem ocorrer fora do período que está internado.
Não ignore sintomas como febre, secreção estranha pela ferida, vermelhidão no corte, inchaços e dores nas pernas, tosse, palpitações, dificuldade para evacuar ou urinar, dificuldade para comer, alergia pelo corpo entre outros. São todos sintomas que devem ser avaliados pela equipe.
Hoje com telemedicina regulamentada pelo conselho federal de medicina é muito fácil resolver. Porque com uma simples chamada de vídeo podemos ter ideia se o paciente precisa ou não ir ao pronto socorro. Dúvidas também devem ser tiradas quando houver.
Para tudo isso chamamos de monitorização pós alta.
Apesar da alta, o paciente ainda necessitará de cuidados em casa que podem ser de dias até mesmo meses. Portanto, precisa de alguém do lado. De um familiar, cuidador ou enfermeiro que irá ajudá-lo no que precisar e ligar para equipe quando tiver necessidade.
5- Manter a rotina em casa
A rotina que começamos antes da cirurgia de atividade física e nutrição devem ser mantidas após a cirurgia. Manter o peso e alimentação controlada favorecem a recuperação acelerada.
É comprovado por estudos que a atividade física pós-tratamento de um câncer pode diminuir a chance de volta da doença, bem como aumenta a expectativa de vida do paciente. Portanto, não desista de fazer exercício físico.





